quinta-feira, 5 de abril de 2012

De pernas pro ar

Toda vez que coloco meus pés no tapete do setenta e um
Essa garota me olha como se nunca tivesse me visto
E quer fazer de dois mil e doze, mil novecentos e sessenta e seis
E me indaga, me agarra, me machuca
Me dá três bons tapas no rosto
Pra ver se eu aprendo a ser uma boa garota
Um metro e setenta e quatro de equilíbrio
Seriedade, simpatia, espontaneidade e comentários perspicazes
E veja bem, mocinha, seus pés só podem ficar até quinze centímetros acima do chão

Só que eu insisto em viver pra lá de setenta e sete léguas

Epifania 3

menina, vem cá perto
coração desperto
sem deslize
se quer ser feliz
não poetise

Lição de casa

De que serve a Álgebra da minha adolescência?
Nesse nosso jogo um mais um
Não é dois
[Deveria ser um!]
Dá zero.
Sempre zero.
Zerou.

Deus, meu Deus, posso recomeçar?
Pra ver se dessa vez eu altero o placar.

Uma noite com Kaufman

De que serve tanta sinapse
se não sei fazer a sinopse?

Crio personagens descabidos
Desfoco o essencial
Cutuco corações feridos
Só pra ter o papel principal.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Amor a fiado

Entre pernas apressadas e esquinas contorcidas
Essas vidas embaraçadas de duas almas falidas.

Toda manhã, uma gota de veneno no seu café
Enquanto você diz que meus olhos são de maré.
Toda tarde, um beijo cheio de toxina
Enquanto você diz que sou sua menina.
Toda noite, uma picada de escorpião
Enquanto você diz: bendita paixão!

Você quer que tudo fique em branco
Eu só quero agulhar seu peito
Mostrando o extrato do banco
Com o maior despeito.

Não percebe a guerra de egos?
Estamos bem pra lá de Eros.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Dela para Chico

Moço, levanta desse sofá
Permita-me reformar meu abrigo
Nesse tango violento, rasgou-se o tafetá
Esse nosso amor? Um perigo.

E vai com pernas apressadas
Já que uma moça leu nas minhas linhas enrugadas
que seu olhar mente
que sua voz só consente
que seu coração é displicente.

Abrir bem essa janela enferrujada
Trocar a roupa de cama ensanguentada
Desabotoar o decote pro outro moço que já vem
Já que moça desgraçada precisa sempre de um refém.

Vê se corre depressa
O outro moço acabou de me contar
que seu beijo é líquido de bacilo
que você é meu único vacilo
que com ele vou aprender a somar
soledad e libertad.

Mas antes, vem cá, seu moço
Embriagados vamos nos embalar
Já te disse que o tango é a tristeza que se pode dançar?

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Julho enrugado

Ontem me deparei com uma pergunta tão atrevida: quantos anos você envelheceu? Então o curvar da minha coluna já parece tão evidente? Queria ser tão imponente e perpendicular quanto coluna grega mas, meu amigo, a pólis me faz curvar diante de sua magnitude. Agora fico assim, meio pra lá, feito torre de Pisa. Esse sofrimento angular de quem não sabe qual perpendicular esquina virar.

domingo, 17 de julho de 2011

Janela Indiscreta

Da janela vejo que Maria que queria ser Vitória
nem ao menos fecha os olhos para sonhar.

Da janela ouço o estraçalhar dos pratos lavados
com pranto gelado dos contratos quebrados.

Da janela observo o balanço sem música de quem
proseia sem direção enquanto a poesia brinca de esconde-esconde.

Da janela o chão parecia tão macio quanto as nuvens
e um grito rouco de prazer se espalhou pela superfície de algodão.

De cada janela, um uníssono suspiro:
Maria que queria ser Vitória
nem ao menos conseguiu ser Vera.

sábado, 16 de julho de 2011

Epifania 2

há poesia em tudo o que vejo
uma rima é meu único desejo

Epifania 1

Quando descobriu-se menina,
O coração foi o despertador.
Queria correr além da esquina,
Ver o mundo do topo do escorregador.