quinta-feira, 21 de julho de 2011

Julho enrugado

Ontem me deparei com uma pergunta tão atrevida: quantos anos você envelheceu? Então o curvar da minha coluna já parece tão evidente? Queria ser tão imponente e perpendicular quanto coluna grega mas, meu amigo, a pólis me faz curvar diante de sua magnitude. Agora fico assim, meio pra lá, feito torre de Pisa. Esse sofrimento angular de quem não sabe qual perpendicular esquina virar.

domingo, 17 de julho de 2011

Janela Indiscreta

Da janela vejo que Maria que queria ser Vitória
nem ao menos fecha os olhos para sonhar.

Da janela ouço o estraçalhar dos pratos lavados
com pranto gelado dos contratos quebrados.

Da janela observo o balanço sem música de quem
proseia sem direção enquanto a poesia brinca de esconde-esconde.

Da janela o chão parecia tão macio quanto as nuvens
e um grito rouco de prazer se espalhou pela superfície de algodão.

De cada janela, um uníssono suspiro:
Maria que queria ser Vitória
nem ao menos conseguiu ser Vera.

sábado, 16 de julho de 2011

Epifania 2

há poesia em tudo o que vejo
uma rima é meu único desejo

Epifania 1

Quando descobriu-se menina,
O coração foi o despertador.
Queria correr além da esquina,
Ver o mundo do topo do escorregador.

Metrópole

Meus pés, carregando o sotaque nas solas, traçaram o percurso contrário ao dos bandeirantes. Meus olhos de criança queriam tatear tudo o que podiam às margens do Tietê. Desejavam arranhar nuvens como os arranha-céus. Mas, meu Deus, que nuvens? Um manto cinza abrindo seus braços para me sufocar. E conseguiu: perdi o ar entre tantos tijolos. Concreto preto, concreto cinza, concreto amarelo, concreto azul; concreto concretando a minha vontade desesperada de criar raízes em qualquer rachadura da calçada. Pés engraxados, pés universitários, pés estrangeiros, pés descalços; todos sapateando na sincronia da pressa. A pólis respira ofegante, ciente de seus contrastes. Um peito instável - tão instável quanto o meu. Entre os espelhos da Paulista, no abraço do Trianon, a paz sentou ao meu lado. Minha mente de criança, de árvore em árvore, parecia brincar de esconde-esconde com a civilização. Ilusão! Renoir, Monet, Dalí, Van Gogh e até Picasso me observavam com olhos suspensos num atravessar de rua. Na Sé, a fé fez meus joelhos dobrarem, enquanto minha pele transpirava poesia romântica. E quem se importa em não poder ver a luz das estrelas? Na luz dos postes eu posso cantar na chuva. Alguma coisa aconteceu no meu coração. 

(24/10/2010)

A epifania

  Se são as perguntas que movem o mundo, então a rotação do meu se encontra em velocidade máxima. Filósofa - literalmente. Amante da sabedoria enciclopédica àquela pra bater o copo no balcão. Falta-me o copo e as respostas.
  Essas pessoas e suas pernas apressadas! Sentam-se ao meu lado e logo deixam seus pedaços no assento. E lá estou eu a analisar milimetricamente cada pedaço, tocá-los, compreendê-los, absorvê-los, comê-los, numa comunhão com o mundo. Nesse vai e vem, vêm e vão: um vão no meu coração.
  Essa mente metamorfoseante que sussura o dilema de Platão: essência, aparência, essência, aparência, essência. Não há escolha: a realidade é relativa e são tantos os heterônimos. Melhor assim, inventando a vida enquanto ela me inventa.
  Mas lhe digo, hoje - hoje - o meu peito estralou. Os meus dedos também! É como quando um inseto pousa no ombro e por um segundo, quando o encaramos, nos damos conta do trabalho silencioso e secreto da natureza. Hoje - hoje - uma esperança verdadeiramente verde acomodou-se na palma da minha mão.
  Esse dardo certeiro me tirou qualquer certeza; mas lhe digo: o mundo ficou odara. Epifania seria?

(12/11/2010)

Sentimento impressionista

Minhas mãos andam cambaleantes calejadas, segurando infantilmente esse pincel. Movimentos inexperientes tempestuosamente ofegantes sobre uma tela que mal consegue aguentar-se no próprio cavalete. Mileuma rachaduras. E a fechadura? Tranquei-me aqui para não sair antes do sol despontar. As tintas, minhas palavras. Esse esforço para saboreá-las, engoli-las, digeri-las: cruelmente ácidas. Antes que a porta se abra e o vento venha borrar o que restou, eu diluirei minhas tintas nessa água tristonha que navalha a face. Imenso mar, tanto amar. É preciso ainda navegar?

(07/08/2010)

Renascimento de cada dia

Será que é a lua de São Jorge que me faz assim? Essa lua branca, pulsando vermelha. E lá vem a maré de pensamentos torturantemente azuis me afogar. De que adiantam as batucadas verde-e-amarelas que fazem meus pés sapatearem em silêncio? De que adianta meu sangue correndo nessa veias napolitanamente? London, London; de que adiantam os acordes singelos vindos de ti? E seu Übermensch, Nietzsche? Vai me fazer companhia na minha marejada imensidão? E essa felicidade amarela que eu carrego nos bolsos? Sorriso não-compartilhado é solidão. A vida é, então, rara. Rasa a dos outros; a minha, o Canyon: fui ser jacobinamente gauche. E esse meu coração, contrariando a anatomia, enraizou-se esquerdo; tão misterioso quanto o riso da Monalisa.

(17/09/2010)

Heliotropismo

À flor da pele, a flor no peito. Numa tarde de inverno - eu confesso - uma flor nasceu em mim. Bem ali, um lugar apertado, onde o solo é umidecido periodicamente com lágrimas: o peito fértil. À minha volta, os dedos cruzados por uma rosa, uma tulipa,um lírio selvagem. Desabrochou um girassol. Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião, gira sol. O meu girassol. Fadado, coitado, à uma órbita elipticamente infeliz.
- Arranco pelas raízes ou adubo pra crescer?

(23/07/2010)

Uma esperança

A da Clarice, verde; a minha, amarela. Amarelo ouro, amarelo manga, aquele de Van Gogh. Ela pousa radiante nos nossos livros, no seu ombro, no meu coração. Rezo praque ela nunca perca as asas.

(23/07/2010)

Sete vidas

Nada me preocupa mais que essa esperança desesperada.

(16/07/2010)

O degrau

Na poesia alheia sou sempre só mais uma vírgula. Uma mera vírgula.
Quem sabe, um dia, ser então o quarteto; quiçá o soneto completo de alguém.

(11/08/2010)

Amarelo

Essas estrelas no céu da minha boca são as palavras que eu guardo aguardando o dia amanhecer.

(07/08/2010)

Amor carnavalesco

Elegante essa minha dor, escondida atrás de qualquer máscara sorridente, dançando sem saber os passos, no meio do salão.
Eis que então, o anjo torto me indagou: entre a dor e o nada, o que você escolhe?

(23/07/2010)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Haicai Hemofílico

À memória da Marília (de Dirceu) do Manuel

Quente e acre pinga
Do miocárdio
Gota a gota, amore mio.


(16/07/2010)