sábado, 16 de julho de 2011

Metrópole

Meus pés, carregando o sotaque nas solas, traçaram o percurso contrário ao dos bandeirantes. Meus olhos de criança queriam tatear tudo o que podiam às margens do Tietê. Desejavam arranhar nuvens como os arranha-céus. Mas, meu Deus, que nuvens? Um manto cinza abrindo seus braços para me sufocar. E conseguiu: perdi o ar entre tantos tijolos. Concreto preto, concreto cinza, concreto amarelo, concreto azul; concreto concretando a minha vontade desesperada de criar raízes em qualquer rachadura da calçada. Pés engraxados, pés universitários, pés estrangeiros, pés descalços; todos sapateando na sincronia da pressa. A pólis respira ofegante, ciente de seus contrastes. Um peito instável - tão instável quanto o meu. Entre os espelhos da Paulista, no abraço do Trianon, a paz sentou ao meu lado. Minha mente de criança, de árvore em árvore, parecia brincar de esconde-esconde com a civilização. Ilusão! Renoir, Monet, Dalí, Van Gogh e até Picasso me observavam com olhos suspensos num atravessar de rua. Na Sé, a fé fez meus joelhos dobrarem, enquanto minha pele transpirava poesia romântica. E quem se importa em não poder ver a luz das estrelas? Na luz dos postes eu posso cantar na chuva. Alguma coisa aconteceu no meu coração. 

(24/10/2010)

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